terça-feira, 30 de novembro de 2010

ela #1


Achou que não fazia mal. Afinal (que coisa!) era só uma conversa. Só mais uma conversa, só mais uma pessoa. Sim, sabia a sua vida já cheia. Sabia das muitas caras que povoavam o escuro quando fechava os olhos. Sabia dos olhos que olhavam os seus, mesmo quando nem sequer reparava. Mas achou que não fazia mal, e embarcou com tudo o que tinha (como de costume). Se caiu ou está de pé ainda não há relatos. O tempo, esse fugitivo que tantas vezes é rápido demais, revela-se desta vez para ela extremamente vagaroso. Demasiado vagaroso para a sua vontade? Há muito percebeu que a sua vontade já pouco conta nestas somas complicadas das suas divisões pelos outros e pelo mundo. Achou que não fazia mal mais uma cara no escuro, mais dois olhos a seguir os seus, mais uma vida a partilhar a sua vida. Achou que não fazia mal, e se calhar até nem faz. Mas, e se vier o dia em que procurar aquilo que acha que guardou, e não encontrar nada? Neste jogo das somas e das divisões, ainda não se habituou a perceber que o resultado não dá "resto zero". Há sempre uma parcela que tem que ser sua, e só sua. Mas ela achou que não fazia mal, e atirou-se. Agora voa. Até quando?...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Lei de Talião
para bom entendedor...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"Tenho saudades de a ver sorrir..."

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sábado, 30 de outubro de 2010

Eu não costumo rezar, Deus...

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De repente, depois de atravessar a rua, parou em frente de uma igreja e ficou a olhá-la. Há que tempos que não entrava numa igreja! Lembrava-se de ter andado na catequese em pequena e de ter feito a Primeira Comunhão. Depois, como os pais não eram praticantes, desligara-se também de todos os rituais. Continuava parada no passeio, sem saber porquê. Olhou novamente o cimo da escadaria. A porta do lado direito parecia estar aberta. E se entrasse?
Retirou a mochila das costas e carregou-a sob o braço até ao último banco. Fazia fresco ali dentro. Não estava mais ninguém e ela sentiu frio ou qualquer outra sensação que lhe provocou um longo arrepio. Sentou-se e pousou a mochila no genuflexório de madeira encerada.
Ficou por algum tempo a olhar à sua volta. Havia um aroma penetrante e familiar que a fez recuar até à infância... Fechou os olhos e reviu-se ao sair da catequese, num sábado de Inverno em que o salão paroquial tinha acabado de ser encerado. Escorregara, ao dar passagem à catequista, e estatelara-se ao comprido no meio dos colegas. Sorriu mentalmente. Já tinham passado alguns anos, mas recordava-se perfeitamente da aflição da catequista, que temera que ela tivesse partido uma perna...
Abriu os olhos e, pela primeira vez que ali entrara, fixou-se no enorme crucifixo de madeira lá à frente, do lado direito do altar-mor. Então, instintivamente, ajoelhou-se e, sem deixar de olhar a cruz, começou a falar baixinho:
- Eu não costumo rezar, Deus. Tu sabes... Também não venho à missa... Já não me confesso há tanto tempo que nem me lembro quando foi a última vez... Acho que nunca mais pensei nisso, desculpa... - Olhou então para todos os lados e, como ninguém tivesse entrado na igreja, continuou a falar com Deus: - Acho que devia rezar à noite e essas coisas, mas estou sempre cheia de sono e a verdade é que também não me lembro... Mas acredito que existes! E não trocava de religião para uma dessas que prometem milagres e cenas esquisitas. Nem pensar! Acontece que, como sabes, o F., que é meu amigo, está muito doente e... bem... agora, eu precisava mesmo de um milagre, caso não fosse pedir muito. É que os médicos andam à rasca e não sabem o que ele tem, portanto, está tudo bastante confuso. Coitado do F., ele só tem a minha idade! Não está prepaparado para..., enfim, não seria justo ele... quero dizer, talvez já chegue de sofrimento, não achas? Ele até é tão boa pessoa, juro! - Riu-se. - Claro que Tu o conheces bem! - Soltou um longo suspiro, que lhe veio directamente do coração. Depois, procurou os olhos de Cristo, mas Ele estava lá longe, muito longe do último banco... Seria que a veria ali ao fundo? E, se a olhasse, com que olhos a veria? Retomou o discurso: - Pois era isto que eu vinha dizer-Te. A gente já não sabe o que há-de fazer... Os pais dele estão mesmo desorientados e... eu também. - Olhou novamente em seu redor e reparou que uma senhora vestida de preto se tinha vindo sentar no banco da esquerda e orava com um terço nas mãos. Baixou ainda mais o tom de voz: - Se eu me lembrasse, rezava uma daquelas orações que aprendi há séculos, mas acho que já não sei as letras... Desculpa! Ah! - exclamou um pouco alto de mais. Depois, continuou quase em surdina, como se estivesse a contar um segredo: - Lembro-me daquela ao Anjo da Guarda, mas suponho que não dá para o F.. Ele precisa de mais do que um anjo. Muito mais! Fazemos uma coisa: eu vou inventar agora uma oração e conta na mesma, está bem? - Fechou os olhos, uniu as mãos e disse: - Meu Deus, faz com que o F. fique completamente bom depressa e volte para casa, que o hospital é uma grande seca. Amén!
Posto isto, benzeu-se, pegou na mochila e saiu da igreja, em pés de lã, com a cabeça leve, tão leve que, por uns momentos, deixou de pensar.
Ao descer a escadaria, encontrou um pobre sem idade definida, com o rosto pálido, cansado e olheiras muito fundas, que lhe sorriu. Estranhamente, não lhe pediu dinheiro - nem mesmo através do sorriso. Não lhe pedia nada! E ela, sem saber por que razão, deu-lhe um aperto de mão demorado, fitandoo, sem receio, nos olhos fundos e pacientes, que, curiosamente, lhe pareceram muito familiares. Seriam os mesmos da cruz? Os que ela não chegara a ver por estar tão longe? Sorriu-lhe então como se o conhecesse desde pequena e há muito não o visse. Depois, seguiu finalmente para casa.
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Maria Teresa Maia Gonzalez & Maria do Rosário Pedreira, O Clube das Chaves e os animais desaparecidos

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Ouvindo-te, nada ficaria sabendo...

Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

Alberto Caeiro